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    Eduardo Bizon


     
     

    Tolos enganos

    Quando Lula ganhou a eleição para presidente da república, parecia que as coisas iriam entrar aos poucos nos eixos e tudo poderia mudar em nome da esperança. Coisa de slogan de campanha. Passados pouco mais de uma década desde que assumiu a presidência pela primeira vez, o brasileiro que pensa conclui que tudo não passou de tolos enganos. As ilusões foram jogadas pelo ralo, os sonhos se transformaram em pesadelos. É muita sujeira, muito desvio de dinheiro público, muita incoerência entre o que se falou e o que se fez. O país continua num atoleiro sem fim e as reformas necessárias não aconteceram. No governo federal explodiu o escândalo do Mensalão, nos governos estaduais de São Paulo e de Brasília os escândalos no Metrô e no Trem Metropolitano e no governo municipal de São Paulo a roubalheira imposta pela máfia do INSS que funcionava que era uma maravilha desde 2002. Vivemos na vida real o “Auto da Barca do Inferno” de Gil Vicente. E nesta barca ninguém se salva.

     É demoníaca a aptidão dessas pessoas, estrategicamente posicionadas em cargos comissionados, de se corromper para canalizar recursos para campanhas políticas e também para enriquecimento próprio.  Mais demoníaca ainda é falta de escrúpulos dos políticos que os indicam para ocupar tais cargos, e, quando a casa cai se fazem de inocentes, do tipo eu não vi nada, eu não sabia de nada.

     Desde a adolescência me esforço para tentar entender os rumos impostos por essa tal de política de araque onde o poder acaba caindo, na grande maioria das vezes, nas mãos de pessoas prepotentes, arrogantes, desonestas, falsas, incompetentes e ignorantes. Fazer o que? No mínimo a população precisa ser esclarecida. O caminho das pedras pede coragem. E, coragem é coisa de doido nesse país de leis distorcidas. De qualquer maneira, coragem, aliada à perspicácia, são instrumentos necessários para desmantelar o jogo de cartas marcadas.

     Em anos de eleição tudo pode acontecer. Obras sem planejamento e superfaturadas rolam sem empecilhos. Brindes e cestas básicas são distribuídos como troféus na cata de votos do obscurantismo. Artistas, se é que podem ser chamados de artistas, se vendem por cachês milionários para promover falsos políticos. Fortunas provenientes de fontes escusas são gastas em propagandas enganosas. E nada ainda foi feito no Congresso Nacional para mudar esse quadro tenebroso, cujas consequências nocivas estão levando nossas instituições á falência.

     O alento para prosseguir, e agora eu serei otimista, é que no embate democrático a resposta pode ser dada nas urnas. Ao longo de nossa história muitos têm nos enganado. Alguns ainda continuarão nos enganando por mais algum tempo. Mas chegará a hora em que serão desmascarados de fato. E se assim não for continuaremos a amargar tolos enganos.



    Categoria: CronicaMemorialista
    Escrito por Eduardo Bizon às 13h37
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    Praça Orlando Silva "O Cantor das Multidões"

    No dia 3 de outubro de 2010, recebi um e-mail enviado pelo doutor em biologia e professor universitário, Silvano Pereira, que, aliás, também tinha como atividade pesquisar detalhadamente a história de Vila Maria, bairro da cidade de São Paulo, para a publicação de um livro. O e-mail dizia o seguinte:


    Foto do site ZN na Linha

    Leia entrevista: http://www.znnalinha.com.br/vilamaria/html/silvano.html

     “Lembrei-me, hoje é dia 03 de outubro, que lá no longínquo ano de l9l5, nessa mesma data, nascia o incomparável Orlando Silva que aos 19 anos, levado pelas mãos de Francisco Alves, estreava no rádio e que com apenas dois anos de carreira já era conhecido como o "Cantor das Multidões". Lembrei-me também que o dia 27 de setembro, foi o dia do aniversário da morte de Chico Alves, pois o "Rei da Voz" morreu em um acidente de automóvel no dia 27/09/52, na via Dutra, em Pindamonhangaba. Os veículos de mídia teriam feito alguma menção a essas datas? Eu não vi nada.

     Convém lembrar que esses dois cantores ao lado de outros cancioneiros como Silvio Caldas, Carlos Galhardo e depois Nelson Gonçalves figuram entre os maiores interpretes da MPB em todos os tempos.

     Na Vila Guilherme uma praça foi batizada com o nome do intérprete de “Rosa”, “Carinhoso”, “Nada Além”, “Renúncia” e outras mais de mil músicas e nas placas onde se lia “Praça Orlando Silva” e, abaixo do nome, “O Cantor das Multidões”, hoje se lê “Orlando Silva” e, abaixo do nome, os dizeres “Praça Orlando Silva”. Como se percebe, além da redundância, neste caso como em tantos outros, nada consta nas placas sobre a atividade em que se destacou o homenageado que dá nome ao logradouro. Isto dá margem a muita confusão. Neste caso, muitas pessoas acreditam que o nome da praça seja uma homenagem a um filho de Guilherme Praum da Silva, fundador do bairro, porém, seu Guilherme não teve nenhum filho com o nome de Orlando.

     Além dessa confusão toda, ocorre que o busto do cantor, tal como os óculos do Drummond, em Copacabana, foi por mais de uma vez retirado por catadores. Ora se o bronze é um material tão cobiçado por que nossas autoridades não mandam confeccionar um busto de mármore ou granito? Será que o inesquecível cantor não merece isso?”

                 Sensibilizado com a notícia recebida ontem, 14 de Novembro de 2013, por volta das 22 horas, da filha do professor comunicando seu falecimento, saí à cata desse e-mail que eu havia gravado em meus arquivos, para de alguma forma homenagear esse ilustre senhor que fez parte de meu restrito circulo de amizades, e da mesma forma relembrar Orlando Silva, o ídolo maior de Silvano Pereira.

                 Para ir mais além, li uma reportagem publicada no jornal “O Estado de São Paulo”, em 11 de Novembro de 1996. O texto intitulado “Abandonada, Praça Orlando Silva quer a multidão de volta”, diz que a praça recebeu um novo busto do cantor para substituir o original que desaparecera, e, além disso, tornou a oferecer eventos musicais aos admiradores como parte da programação da época da “Semana da Música Popular Brasileira”.

                 A Praça foi inaugurada em 16 de outubro de 1980, com apresentações de grandes nomes contemporâneos de Orlando Silva, como Gilberto Alves e Carlos Galhardo, sempre tendo presente uma multidão de fãs. E como diz a matéria do Estadão, a Praça foi novamente inaugurada depois de um período de abandono. Atualmente, é triste dizer, mas a Praça precisa ser inaugurada mais uma vez para que seja espantado o sentimento de descaso e de memória curta que persegue o povo brasileiro. Orlando Silva não deveria jamais ser esquecido. “O Cantor das Multidões” precisa ser relembrado pelas gerações futuras. Não fosse Orlando Silva e seus contemporâneos a MPB não teria evoluído tal como evoluiu. A Bossa Nova não teria surgido para modernizar o ambiente musical e tornar a música brasileira conhecida pelo mundo todo.

                 É fato que os administradores públicos não dão a mínima importância quanto à preservação de locais como a “Praça Orlando Silva”. Presenteá-la com um novo busto que seja a prova de furtos e quem sabe trazer de volta shows musicais de tempos em tempos como maneira de preservar a memória do ídolo de mais de uma geração. A Praça localiza-se num dos pontos mais importantes e movimentados da Zona Norte da cidade, para onde convergem vias importantes como as Avenidas Zachi Narchi e Luis Dumont Villares e as Ruas Maria Cândida e Olavo Egídio.

                 Professor Silvano se foi, mas, infelizmente, a doença que o acompanhou nos últimos anos o impediu de concluir o livro sobre o bairro de Vila Maria e região. Este foi o jeito que encontrei para despedir-me de um grande amigo. Quando conversávamos, o professor demonstrava sua admiração por Orlando Silva e lamentava a falta de sensibilidade dos prefeitos que se esquecem de preservar locais significativos como a Praça Orlando Silva.



     



    Categoria: CronicaMemorialista
    Escrito por Eduardo Bizon às 10h04
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    Desatenção Básica de Saúde

     

     

    A área de saúde pública precisa ser discutida com maior seriedade pela sociedade brasileira. Aqueles que podem pagar convênios médicos privados cheios de limitações, por comodidade, se permitem não participar do debate nacional sobre esse tema, e desta forma não reivindicam, não exigem dos governantes juntamente com a massa maior da população que depende exclusivamente do SUS para atendimentos de saúde, que sejam tomadas medidas efetivas pelo governo federal no tocante ao financiamento publico, acatando e regulamentando em toda sua totalidade o que estabelece a Emenda Constitucional 29/2000. No entanto, esses mesmos privilegiados que pagam altos custos aos convênios médicos privados, cuja finalidade maior é o lucro empresarial, também utilizam os serviços do SUS quer seja na aquisição de medicamentos quer seja nas cirurgias de alta complexidade restringidas pela medicina de grupo privada. E, de certa forma utilizam o SUS de maneira velada, uma vez, que se sentem envergonhados em dizer que, quando o calo aperta, recorrem ao sistema público de saúde. 

    Conforme consta no texto da Emenda 29, o governo federal deveria aplicar anualmente 10% das receitas brutas correntes, ou seja, 10% da soma do total das receitas tributárias, de patrimônio, industriais, agropecuárias, de serviços e outras receitas correntes. O governo estadual deveria aplicar em saúde no mínimo 12% da arrecadação de impostos e o governo municipal no mínimo 15% de sua arrecadação. 

    Na prática são os municípios quem mais se penalizam. Em alguns casos chegam a aplicar muito mais do que os 15% para poder compensar as insuficiências dos governos federal e estadual que não cumprem com suas obrigações no que se refere aos recursos. Sem contar os municípios menores cujas receitas próprias são mínimas e dependem totalmente de repasses de recursos federais para manter funcionando a saúde local.

    De qualquer modo, enquanto a Emenda 29 não for regulamentada a união se desobriga a seguir regras quanto ao financiamento da saúde, deixando para os estados e municípios a obrigatoriedade na aplicação dos recursos. Hoje, a união aplica menos do que os 10% do PIB, ou melhor, aplica ínfimos 4% do PIB na área de saúde pública. E mais grave ainda é a divisão desta receita insuficiente gerada pelos 4% do PIB, onde 40% do total são destinados à administração publica direta e os outros 60% são movimentadas pelo setor privado que presta serviço ao SUS. E mais constrangedor ainda é que o setor privado só quer o filé mignon do SUS, ou seja, só quer os procedimentos pagos melhor pela tabela SUS, além do que também tem o beneficio da renuncia fiscal propiciada por um modelo tributário permissivo. Isto é escandaloso. 

    Voltando agora ao município de São Paulo, a maior cidade do planeta localizada abaixo da Linha do Equador e a mais forte em arrecadação de impostos do país, no decorrer das ultimas décadas nota-se as incoerências nas administrações municipais que se sucedem. Prefeitos assumem mandatos de quatro em quatro anos, mas quando estão no poder não dão continuidade ao trabalho implantado pelo antecessor. Adotam medidas próprias, achando que conseguirão consertar o que entendem não estar funcionando, ignoram o SUS e sem regras a casa acaba virando bagunça. 

    Munícipes paulistanos têm suportado todo tipo de inovações possíveis. Um prefeito vem e implanta o PAS, e de maneira inábil, por não ter assumido uma das gestões – plena ou semiplena – estabelecidas pelo SUS, simplesmente deixa de receber repasses de verbas do governo federal a que teria direito para manter funcionando a atenção básica. Seu sucessor continua com a mesma política nociva por mais quatro anos. Durante oito de anos do PAS, a atenção básica na cidade foi impiedosamente destroçada. 

    Após a era PAS, assume a prefeita petista que adota o caminho correto, ou seja, se reintegra ao SUS adotando a gestão plena para a saúde pública municipal. Desta forma teria que assumir a administração de todas as unidades de saúde localizadas na cidade, com exceção dos três hospitais chamados de grandes – Hospital das Clínicas, Hospital São Paulo e Santa Casa. Ao adotar a gestão plena e ao legalizar os Conselhos Municipais de Saúde, passou a receber os repasses federais de verba PAB a serem aplicados na atenção básica. No entanto, a situação de quase quatrocentas unidades de saúde existentes era bastante precária. De outro modo, a prefeita optou por priorizar a implantação do Programa de Saúde da Família, deixando as Unidades Básicas de Saúde (UBS) para um segundo plano. 

    Como o segundo plano não aconteceu, o tempo se encarregou de confirmar o sucateamento da atenção básica. E ainda para completar não assumiu todas as unidades de saúde instaladas na cidade e grande parte delas ainda é gerenciada pelo governo estadual, contribuindo para que haja um desbalanceamento no sistema municipal e, sobretudo, uma disputa de vagas ambulatoriais e de internação para média e alta complexidade por dois sistemas de regulação – estadual e municipal – que funcionam separadamente e não se entendem. Eu, particularmente, não me inibo em dizer que o governo do estado pratica  um loteamento político de vagas trazendo diariamente caravanas de pacientes provenientes das mais longínquas cidades interioranas para atendimento nos hospitais públicos do município de São Paulo, que ainda estão sobre sua gestão, e, com isso se desobriga a implantar serviços regionais de maior complexidade que atendam grupos de cidades do interior do estado. 

    Quatro anos depois assumiu o prefeito tucano. Para desconsolo da população de São Paulo, a prioridade adotada para a saúde também foi outra diferente de tudo que se podia esperar. Foi criada a lei, de legalidade discutível à época, que permitia a gestão terceirizada de unidades de saúde pelas denominadas Organizações Sociais. Com isso o visionário prefeito dizia que com a terceirização dos serviços não faltaria mais médicos, pois seria mais fácil demitir quem não queria trabalhar e contratar novos doutores através do regime CLT, dispensando concurso público. Sua visão não vingou e hoje estamos assistindo ao plano do governo federal na contratação de médicos estrangeiros, o que, aliás, tem gerado uma enorme polêmica nos meios acadêmicos. Além disso, o prefeito e seu sucessor priorizaram por oito anos a implantação de um novo tipo de atendimento, que na verdade não é novo nem nada a não ser pelo nome de batismo. E aqui me refiro às Assistências Médicas Ambulatoriais (AMA) que funcionam de segundas-feiras a sábados por um período de doze horas. As AMA´s nada mais são do que unidades de emergência similares ao Pronto Atendimento (PA) criado durante o governo militar. Como não têm estrutura de pronto-socorro ou hospital, só atendem casos mais simples e consultas médicas sem maiores complicações. No entanto, após ser atendido na AMA, o paciente não existe mais, pois não são feitos prontuários para posterior acompanhamento em casos de retorno. Isso lá é saúde preventiva? 

    Atualmente, ano de 2013, o prefeito petista chega com novas ideias, preocupado em cumprir promessas de campanha eleitoral. Prometeu implantar Unidades Hora Certa em cada uma das Subprefeituras da cidade. E para que isso aconteça exige do Secretário de Saúde que essas unidades sejam implantadas até o final de seu primeiro ano de mandato. O Secretário de Saúde por sua vez exige de seus funcionários que encontrem de qualquer jeito um local para adequar a Unidade Hora Certa, desprezando as condições técnicas que envolvem a questão. Atropelam os conselhos gestores de saúde locais, fazem vista escura para os movimentos sociais e saem a campo para mais uma vez invadirem o espaço físico das Unidades Básicas de Saúde, tal qual aconteceu com seu antecessor na implantação das AMA’s. Ou seja, mais uma vez a atenção básica de saúde, que é a porta de entrada do sistema acaba sendo prejudicada em nome de invencionices de campanha política. Além do mais, depois de quase um ano de governo até o momento nada aconteceu na área de saúde pública municipal que mereça aplausos. 

    Esse processo inverso de futuro obscuro caminha fora da trilha do SUS no que se refere à prevenção de doenças.  Cada prefeito vem com um novo conceito que acaba contribuindo negativamente para a desestruturação do sistema gerando descontinuidades difíceis de serem superadas. E a porta de entrada do sistema diante de sucessivas readaptações acaba se transformando em desatenção básica de saúde. 

     

    O SUS precisa ser construído com a participação de todos. Para isso o controle social é fundamental e deve ser respeitado pela federação. Governadores e prefeitos precisam deixar de lado suas vaidades e não mais fazer invencionices politiqueiras que só contribuem para gerar desajustes no sistema. E, sobretudo, a questão do financiamento precisa ser resolvida de uma vez por todas. A regulamentação da Emenda 29 não pode ser empurrada com a barriga como têm feito todos os presidentes da república que ocuparam o cargo a partir do ano 2000. 

     



    Categoria: SaudePublica
    Escrito por Eduardo Bizon às 14h23
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    Quintais imaginários da vida

    A semana que passou foi marcada por datas significativas. Dia 31 de Outubro é comemorado o Dia do Saci-Pererê.  Instituído com a intenção de abrasileirar a comemoração de uma data que até então tem sido celebrada com o nome de “Halloween” ou “Dia das Bruxas”, festa típica de países anglo-saxônicos. Muito embora o nome oficial agora seja de um personagem do folclore brasileiro, vai demorar algum tempo para que a tendência se concretize. Ao observar meus filhos e namoradas se preparando para uma festa desta data, notei que nenhum deles se fantasiou de saci, de iara, de caipora, lobisomem ou de qualquer outro personagem do nosso folclore.

              De qualquer maneira, foi dado o primeiro passo. É fascinante conhecer e importante fazer perpetuar o folclore do país em que vivemos através de estórias originárias de seus ancestrais. Lendas trazidas pelos europeus que aqui chegaram a partir do descobrimento. Lendas originárias de crendices indígenas com seus entes ligados à natureza – o sol, a lua, os rios, as plantas e os animais. Lendas trazidas pelos negros africanos com seus entes fantásticos e outras oriundas do nebuloso período de escravidão que marcou a ferro e sangue a história do nosso jovem país - as lendas de Zumbi e do Negrinho do Pastoreio, entre tantos outros mitos.

     Agora mudo de conversa para falar do Dia de Finados, 02 de novembro. Dedicado aos familiares e amigos que partiram. Procuro, neste dia, resgatar a imagem em vida daqueles que se foram. E desta forma, ao invés de chorar mais uma vez pela perda, procuro relembrar os bons momentos vividos. E assim reflito embalado pelo bálsamo do sentimentalismo...

     Dirijo-me ao fundo da casa e abro as janelas para os quintais imaginários da vida. Exalto a natureza com toda sua exuberância. Glorifico a razão pela qual estamos aqui neste mundo. Procuro a palavra exata e a encontro. A palavra exata é vida. Passo por um dos quintais, depois por outro e mais outro. Chego à conclusão de que muitos têm sido os quintais de minha vida, e, constato que o que vale a pena, mesmo, são as coisas mais simples, as mais banais, aquelas que não precisam de dinheiro para que a tenhamos e nem de poder para que a conquistemos. Basta um olhar de ternura, um sorriso sincero, um gesto de humildade, um ato de generosidade.

     Por um momento penso nas árvores, no canteiro e nas plantas do meu pequeno jardim. No prazer de mexer a terra e de sujar as mãos com a mesma terra que, através de seu útero universal, faz germinar novas vidas. Aprecio o pé de pitanga que nesta época está forrado de frutinhas vermelhas. Fico curioso ao ouvir um canto diferente e me surpreendo ao notar um sabiá saltando de galho em galho na primavera florida. A natureza resiste diante do caos urbanístico. Observo as orquídeas oriundas das minas gerais, presenteadas por um primo-irmão. As que conseguiram agarrar as raízes aos troncos das árvores, resistiram às intempéries e floriram.

     Retorno ao quintal de minha infância. Estou no pomar da casa de minha avó. Pergunto-me pelas hortas que não fiz. Vejo nitidamente as jabuticabeiras com suas frutinhas pretas brilhantes de alegria. Sinto a sombra fresca debaixo da copa da imensa mangueira, o balanço amarrado ao galho oscilando como o pêndulo de um relógio marcando as horas de minha vida. Meus avós, tios, primos e amigos que partiram. Se de um lado me sinto triste, de outro estou feliz, tenho meu amor, tenho meus filhos e muitas janelas aguardando para que juntos possamos abri-las.

     Dia 1º de novembro é o Dia de Todos os Santos, data muito importante para os católicos. Dia 3 de novembro, minha querida mãe comemora mais um aniversário, 82 anos de idade. Meu desejo é que ela continue com saúde e que permaneça em nossa convivência por muitos anos. Mamãe é uma pessoa boníssima, daquelas que as janelas para os quintais imaginários continuarão se abrindo para muito além dessa vida.



    Categoria: CronicaMemorialista
    Escrito por Eduardo Bizon às 21h02
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