Pronto Socorro de Lata

A semana que passou foi marcada por assombrosas revelações da Secretaria Municipal de Saude de São Paulo. Dessas revelações que nos fazem retornar ao tempo quando então, durante a administração de Celso Pitta, foram construídas escolas de lata na cidade de São Paulo. Tema utilizado em campanhas eleitorais onde um queria comprometer o outro pela responsabilidade neste quesito. José Serra dizia que as escolas de lata teriam sido implantadas pela prefeita Marta Suplicy, que na verdade foi a responsável pelo inicio da extinção dessas malfadadas invenções da administração de Celso Pitta.

 

             Inacreditavelmente, como eu disse no parágrafo anterior, a assombração de lata voltou, e agora na administração de Fernando Haddad. Ou pelo menos se não voltou na prática, está sendo cogitada a implantação dessa barbaridade, não na área de educação, mas agora na área de saúde pública. É o retrocesso do retrocesso. É a gota d’água que restava para transbordar o oceano de mediocridade administrativa porque passa a Secretaria Municipal de Saúde de São Paulo. Não bastasse a inércia da SMS nestes dois primeiros anos de mandato de Fernando Haddad para agora a população ter de suportar o insuportável, ou seja, botar goela abaixo a alternativa da SMS em adotar medidas provisórias de atendimento à saude em consultórios de lata.

 

             O Pronto Socorro Municipal de Vila Maria, conhecido como Pronto Socorro Cometinha, deverá passar por reforma para a implantação de uma Unidade de Pronto Atendimento (UPA), que deverá se iniciar ainda este ano. Obra esta cuja duração foi estimada para nove meses. Mas, para que isso ocorra, o Pronto Socorro deve continuar funcionando. E, desta forma, a alternativa direcionada pela SMS, mais precisamente pela Coordenadoria de Saúde Norte, foi a de construir 400 m2 de consultórios de lata no estacionamento do Hospital Municipal Vereador José Storópolli, também conhecido como Hospital Vermelhinho. E, como é de praxe, obras públicas dificilmente conseguem cumprir o cronograma estabelecido em edital, correndo o risco de que estes nove meses possam se transformar em um ano ou mais.

 

             De outro modo, os profissionais da SMS, como o Coordenador de Saúde Norte, o Secretário Adjunto e também o Secretário de Saúde, ao adotarem esta ideia insensata não imaginaram as consequências ao longo dos meses que estes consultórios de lata poderão acarretar no atendimento de emergência. Como é sabido o Hospital Vermelhinho, terceirizado para a Organização Social SPDM (Sociedade Paulista para Desenvolvimento da Medicina), vem atravessando uma fase muito ruim com problemas de subfinanciamento que induzem diretamente a problemas administrativos recorrentes. Fatalmente a implantação de um Pronto Socorro de Lata, mesmo que provisoriamente, em uma área do Hospital, poderá induzir a riscos cujas consequências nocivas possam ser irreversíveis.

 

             Primeiramente qualquer que seja a finalidade, educação ou saúde, salas de lata não são adequadas para o atendimento humano. Calor e chuva podem igualmente causar desconfortos nocivos e evidentes. Por outro lado, ao instalar um Pronto Socorro de Lata na área adjacente a um hospital em plena atividade, para a população usuária ficará a impressão de que essa unidade deva fazer parte da unidade referente. Não é preciso ser PHD em saúde publica para prever que o hospital acabará tendo que incorporar ao seu dia a dia um volume adicional de pacientes. Isto levará ao colapso da unidade hospitalar, que como eu disse passa por problemas financeiros e administrativos.

 

             Mas agora, mirando para o lado político, não posso deixar de relatar as divergências de ordem gerencial que envolve Secretaria Municipal de Saúde e Organização Social. É fato, que parte da administração petista da SMS não aceita a terceirização de gerenciamento de unidade por Organização Social. Todavia, a população nada tem a ver com essas diferenças de caráter político, e, obviamente, quando fica doente necessita do bom atendimento seja ele qual for, da administração direta ou terceirizada. O que nos leva a exigir dos administradores públicos que assumam, o quanto antes, a solução necessária para acabar com esse impasse. Ou se faz concursos públicos para trazer de volta a administração direta ou aceita de uma vez por todas as organizações sociais, e, desta forma, lhes forneça condições necessárias para que possam trabalhar adequadamente. Basta desse fogo cruzado onde a população é o principal alvo das balas perdidas.

 

             Para encerrar, fico me perguntando se o prefeito Fernando Haddad é corretamente informado dessas ideias absurdas de seus indicados a cargos de confiança que atuam na Secretaria Municipal de Saúde. Se for e se concordar com tudo isso, fatalmente seu governo acabará estigmatizado pelos consultórios de lata.